Doula: Afinal o que é e qual seu papel?

Por Júlia Ritez Martins        


No Brasil a figura da doula ainda é pouco conhecida, mas sua atuação tem raízes milenares. A palavra doula vem do grego e significa "mulher que serve". E atualmente se refere a pessoa que proporciona suporte físico e emocional às mulheres antes, durante e após o parto.


E o que afinal a doula faz?


Antes do parto:

De maneira geral, a Doula trabalha levando informações à mulher ou ao casal sobre como lidar com o parto e pós-parto. Ajuda com exercícios e incentiva a mulher a ser protagonista nesse processo, auxiliando também na elaboração do plano de parto.


Isso tudo é importante porque acolher e orientar a gestante em suas dúvidas e medos é uma forma de fortalecê-la e com isso ela poderá se sentir mais capaz para lidar tanto com o parto, quanto com os cuidados com o bebê.


As explicações sobre as mudanças na gestação, fases do parto, etc, ajudam, portanto, a mulher a se preparar, física e emocionalmente. Além disso, os exercícios específicos para cada fase da gestação ajudam a relaxar e se preparar para esse momento tão único.


Durante o parto:

A Doula é figura de grande ajuda no momento do parto, contribuindo para a humanização dos nascimentos. Sua presença auxilia as mulheres a terem seus filhos de forma amorosa e sem tantas intervenções desnecessárias. Isso porque ela é responsável por ajudar a mulher a encontrar posições mais confortáveis para o trabalho de parto, propor técnicas naturais que podem aliviar as dores, como banhos, massagens, relaxamento, etc.. E dar o suporte emocional fundamental para passar por essa experiência.


Após o parto:

O papel das doulas no pós-parto também é importante, pois ela faz visitas à nova família, auxilia a mãe na amamentação e com os primeiros cuidados com o bebê. E o apoio nesse período sem julgamentos e com informações adequadas reduz a ansiedade, os índices de depressão pós-parto e melhora o vínculo entre mãe e bebê.


Quais resultados esse trabalho da Doula proporciona?


As pesquisadoras M. Brüggemann, M. A. Parpinelli e M. J. D. Osis estudaram os efeitos do suporte à mulher durante o trabalho de parto através de ensaios clínicos randomizados, metanálises e revisões sistemáticas de publicações do período de 1980 até 2004 e concluíram que os resultados do suporte são muito favoráveis: destacando-se a redução da taxa de cesáreanas, da analgesia/medicamentos para alívio da dor, da duração do trabalho de parto, da utilização de ocitocina e produzindo aumento na satisfação materna com a experiência vivida.


O que a doula não faz?


A doula não executa qualquer procedimento médico, não faz parto, exames, ou qualquer intervenção clínica.


A doula e o pai ou acompanhante:


A doula não substitui o pai ou acompanhante durante o trabalho de parto. O pai muitas vezes não sabe bem como ajudar a mulher nesse momento e a doula pode ajudá-lo a confortá-lá, mostrando por exemplo os melhores pontos de massagem, ou sugerindo formas de prestar apoio à mulher.


Um pouco da história do parto...


Antigamente as mulheres eram acompanhadas durante todo o parto em seus lares por outras mulheres mais experientes (mães, irmãs mais velhas, vizinhas, parteiras, benzedeiras, etc). Esse apoio possibilitava que a gestante sentisse segurança para atravessar as dores e medos presentes nesse momento tão importante.


Conforme o parto foi se tornando um evento da esfera médica, passando a ser realizado no ambiente impessoal dos hospitais e com a presença de grande número de pessoas desconhecidas, a mulher começou a se sentir incapaz de parir e a não confiar em seus instintos e seu corpo.


Segundo a historiadora e doula Marina Teixeira "o caráter intervencionista da medicina acaba transformando, principalmente no final do século XX, a gestação em patologia e a gestante em uma “máquina” defeituosa que o médico precisa arrumar para que o bebê seja “salvo”". Os encantos do parto dão lugar ao medo, ansiedade, baixa auto-estima e descrença na capacidade do corpo – tudo o que atrapalha a evolução de um parto vaginal e também a construção do vínculo mãe-bebê, que tem como momento mais importante, a primeira hora após o nascimento".


Não se trata, no entanto, de negar os avanços que a medicina permite e de não fazer uso de suas técnicas e procedimentos que salvam vidas quando bem aplicados. Porém, se o momento do parto se transformar cada vez mais num evento frio, com hora agendada muito previamente, ações mecânicas e muitas vezes grosseiras. E com isso, uma mãe perde suas particularidades, fica escondida atrás de um pano, imóvel e passiva, tornando-se a mãezinha objeto. E o pai se torna aquele que é incapaz de atuar e lidar com a situação: o paizinho sentado num canto ou que chega após o nascimento para ver seu filho recém chegado ao mundo. Perde-se, portanto, a chance dessa família desenvolver habilidades fundamentais para a criação desse novo ser.


Dito de outra maneira, todo o processo do parto, a superação dos medos, das dores, das inseguranças, pode ser vivido como uma forma de melhorar o vínculo que acontece entre família nesse momento mágico. E com isso transformar e proporcionar para essa nova vida uma estrutura familiar e emocional mais fortalecida.



A Doula, em resumo, ajuda nesse processo: é a figura que em meio as técnicas padronizadas, distantes e frias que acabam envolvendo o evento do parto na modernidade, recupera sabedoria ancestral do parir em um grupo de mulheres. Ela traz o afeto em suas mãos que amparam, a paz e tranquilidade em seu olhar experiente, a serenidade necessária a esse momento decisivo e a confiança de que nascer é um ato de amor e carinho.


Fontes:


http://www.scielosp.org/pdf/csp/v21n5/03.pdf


http://historiadoula.blogspot.com.br/


http://doulas.com.br